A última fortaleza de Salazar – O Forte de Santo António da Barra

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O Forte de Santo António da Barra, também conhecido como Forte de Salazar, é uma fortificação costeira situada em São João do Estoril. Foi construído em 1590, por ordem de Filipe I de Portugal, com o objetivo de reforçar a defesa da barra do Tejo contra ataques de corsários ingleses e neerlandeses.
Com a perda da sua importância estratégica, o forte foi alvo de sucessivas adaptações ao longo dos séculos, voltando a ganhar notoriedade ao tornar-se residência de verão de António de Oliveira Salazar.
A partir de 1950, Salazar passou a residir ali durante os meses de verão, instalando o seu gabinete de trabalho no primeiro andar ensolarado do forte, de onde continuava a despachar como Presidente do Conselho de Ministros. A escolha do local refletia a sua necessidade de isolamento e segurança, oferecendo-lhe uma vista privilegiada sobre o mar e até acesso a uma pequena praia privada onde descia para se refrescar.
No forte, Salazar mantinha uma rotina rigorosa e reservada, recebendo apenas visitas oficiais, sobretudo ministros e diplomatas. Estes encontros eram cuidadosamente planeados e utilizados para reforçar a imagem de um líder forte e controlado, desempenhando o Forte de Santo António um papel relevante na propaganda do Estado Novo.
Foi neste local que ocorreu o episódio decisivo da sua queda política. Em agosto de 1968, Salazar caiu de uma cadeira de lona no terraço, batendo com a cabeça no chão de pedra e sofrendo um hematoma intracraniano. Após uma intervenção cirúrgica, viria a sofrer um AVC que o incapacitou definitivamente. A cadeira tornou-se lendária, envolta em versões contraditórias: há quem defenda que se partiu acidentalmente e quem sustente que foi destruída e lançada ao mar pela governanta Maria de Jesus, figura central da sua vida privada (Fernando Dacosta, in Máscaras de Salazar, Ed. Casa das Letras).
Apesar de a governanta ter ajudado a manter as aparências de que Salazar estava bem, os médicos informaram o Presidente Américo Tomás de que a sua vida política tinha terminado. A 26 de setembro de 1968, foi anunciada a sua substituição por Marcelo Caetano, após mais de quatro décadas de governo de Salazar.
Após um longo período de abandono, o forte foi reabilitado pela Câmara Municipal de Cascais e reabriu ao público em 2018. Atualmente, é possível visitar o seu interior, incluindo os aposentos de Salazar.

• Vera Nobre
Historiadora / Universidade Nova de Lisboa