Quinta-feira, Fevereiro 19, 2026
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O invulgar tornou-se rotina numa barbearia de tradição

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Há portas que se abrem todos os dias há tantos anos que acabam por fazer parte do quotidiano das pessoas que por lá passam. O tempo passa ao ritmo das conversas e das histórias que se contam sem pressa.
Nesta barbearia, construiu-se um percurso marcado pela dedicação e pela ligação com quem entra e volta.
Esta é a história de Sónia, uma mulher que trabalha num espaço tradicionalmente ocupado por homens, que se afirmou pela sua consistência, pelo rigor do corte clássico e pela presença diária que acabou por tornar o invulgar num hábito.

Conte-nos como tudo começou.
– Eu comecei a trabalhar numa barbearia em Lisboa quando ainda estava a tirar o curso na Escola de Barbeiros de Lisboa, encontrei essa barbearia mais antiga, era muito bonita, muito característica portuguesa e depois tive a oportunidade de vir para aqui e já cá estou há 32 anos, como barbeiro profissional este foi o meu primeiro trabalho, na altura trabalhava com o dono e com o filho, fiquei aqui durante 8 anos.
Não me levem a mal senhoras, mas prefiro trabalhar com homens, é outro contexto, acho muito engraçado as piadas e as coisas que dizem, falam de futebol, de política e das coisas do seu dia a dia que acabam por contar aqui. Acaba por se formar aqui uma ligação de amizade com todos, não é aquela intervenção de cliente e profissional.
Abri depois uma loja minha na Rebelva, estive lá cinco ou seis anos e entretanto emigrei para Inglaterra onde também trabalhei como barbeiro e adorei porque os ingleses não olham para nós de pé atrás por ser uma mulher naquele trabalho, por ser uma coisa fora do contexto comum normal.
Depois voltei para Portugal e vim trabalhar para aqui outra vez com o filho do dono, entretanto ele faleceu e o senhor pediu-me para ficar aqui a tomar conta do espaço e acabei por trazer o meu filho para trabalhar comigo. Estamos aqui até hoje e espero que ainda dure muitos anos.

Que pessoas é que por aqui passam?
– Passam por aqui todas as idades, dos mais pequenos aos mais velhos, temos um cliente que tem 104 anos.
Parece que não, mas aqui estamos muito perto de Lisboa, e o ambiente parece que ainda é uma aldeia, é mais acolhedor, as pessoas acabam por se conhecer todas umas às outras. Este espaço está aqui desde 1988 e já é tão habitual que há famílias inteiras que vêm cá, desde os netos aos avós, vai passando de geração em geração. Há 32 anos atrás eu comecei a trabalhar com miúdos que eram pequenos na altura e agora já são homens e trazem os filhos com eles.
Como estamos em sites em que a barbearia tem ótimas classificações acabamos por ter clientes estrangeiros e o facto de comunicarmos em inglês também é uma mais valia.

Tem alguma coisa que queira dizer a quem não conhece este espaço?
– Há que experimentar, se quiserem cá vir são bem vindos, as portas estão sempre abertas, temos de estar a fazer algo de bom para termos clientes regulares há tantos anos seguidos. Mudaram-se as pessoas que cá estavam mas a maneira de cortar mantém-se e é disso que as pessoas vêm atrás. É um sítio acolhedor, a decoração é à antiga e os nossos clientes pedem para não mudarmos porque já se sentem em casa, criamos aqui um espaço tradicional e de amizade.