Após o espetáculo “Um cigarro e quatro pares de ténis”, de Ema Fonseca, que esteve em cena no Auditório Fernando Lopes Graça, a companhia do Teatro Experimental de Cascais regressa ao Estoril para mais uma produção, a comédia clássica “Lisistrata”, de Aristófanes.
Este espetáculo encenado por Manuela Couto, com versão e dramaturgia de Miguel Graça, será apresentado entre 10 e 26 de julho de 2026, no Teatro Municipal Mirita Casimiro, de 3ª a sábado às 21h00 e domingo às 16h.
A escolha deste texto funciona como Prova de Aptidão Profissional de alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais, o que já é uma tradição entre as duas instituições, sendo um ritual de passagem à vida profissional dos muitos alunos que já passaram pela Escola, ao longo de mais de vinte anos.
Nesta versão de Miguel Graça assistiremos a uma nova forma de apresentar este texto, dando relevo ao trabalho dos atores, e focando-se no papel das mulheres no Mundo. Será como se estivéssemos a assistir a uma audição, enquanto se desenrolam as cenas de “Lisistrata”.
“Lisistrata”, de Aristófanes, decorre durante uma guerra prolongada entre cidades gregas, num contexto de cansaço coletivo e impasse político. Perante a incapacidade dos governantes para alcançar a paz, Lisistrata reúne mulheres de territórios rivais e propõe uma ação concertada: suspender toda a vida sexual até que os homens negociem o fim do conflito.
Para reforçar o plano, as mulheres mais velhas ocupam a Acrópole e tomam controlo do tesouro público, bloqueando o financiamento militar. Os homens tentam recuperar o poder e furar o bloqueio, mas encontram resistência organizada. À medida que o tempo passa, o desejo, a frustração e o ridículo expõem a fragilidade da autoridade masculina e a dependência da esfera privada.
Entre deserções, tentações e confrontos, Lisistrata mantém a estratégia e força o diálogo entre inimigos. A pressão acumulada conduz finalmente à negociação e à assinatura da paz, encerrando a acção com reconciliação e celebração coletiva.
Num mundo onde os conflitos armados ocupam cada vez mais o nosso quotidiano (seja pelos meios de comunicação social ou digital, ou pelas consequências políticas e económicas que deles resultam), parece cada vez mais urgente voltar a falar de algo~que imaginávamos que estivesse muito mais distante do nosso tempo: a guerra.
“Lisistrata” (411 a.C.) não imagina uma utopia pacifista nem se apresenta como uma mera comédia sexual anti-guerra, é antes um retrato do que é a política após a exaustão de argumentos e da palavra. Aristófanes apresenta o caminho para a Paz não como uma demanda ideológica mas pragmática, as mulheres atenienses não convencem os homens a parar com a guerra, elas apenas transformam a guerra em algo insustentável, ao fazerem greve de sexo.
Dois mil e quatrocentos anos depois, a tese de Aristófanes mantém-se estranhamente presente, a única forma de terminar os conflitos é através da coerção e não da
racionalidade.
