A saúde reprodutiva e o planeamento familiar continuam a registar avanços significativos com impacto direto no bem-estar das populações. Durante a 42.ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), que decorreu em Londres em julho de 2026, foram apresentados estudos inovadores que abrem novos caminhos para o tratamento da infertilidade e da insuficiência ovárica prematura, vulgarmente designada por menopausa precoce.
Inovação e regeneração da função ovárica
Um dos principais destaques do encontro científico foi uma nova estratégia experimental desenvolvida pela investigadora Sonia Herraiz, da Fundação IVI. Através do recurso a fatores de crescimento derivados de células estaminais, a equipa conseguiu recuperar parcialmente a função de ovários afetados pela menopausa precoce em modelos experimentais, demonstrando uma redução do stress celular e um aumento substancial do número de ovócitos obtidos.
Complementarmente, uma equipa coordenada pela cientista Irene Cervelló apresentou um hidrogel capaz de recriar o ambiente natural do ovário humano em laboratório. Produzido a partir de tecido ovárico tratado e combinado com alginato, este material serve como uma plataforma tridimensional que poderá facilitar o desenvolvimento de novas terapias para restaurar a fertilidade, especialmente em mulheres que perderam a função ovárica devido a tratamentos oncológicos como a quimioterapia.
Otimização dos tratamentos de procriação assistida
No âmbito da fertilização in vitro, os investigadores debruçaram-se também sobre o aproveitamento de ovócitos que habitualmente seriam descartados por imaturidade. Um estudo liderado por Marga Esbert revelou que a aplicação de antioxidantes em laboratório permite aproximar o perfil biológico destas células ao das que amadurecem naturalmente, representando uma nova oportunidade para otimizar os tratamentos de casais com prognósticos complexos.
A investigação ibérica contou ainda com a contribuição de Sofia Nunes, diretora do Laboratório de Fertilização In Vitro do IVI Lisboa, que identificou proteínas determinantes na maturação dos ovócitos. Esta descoberta ajuda a clarificar as causas por trás das alterações que comprometem a qualidade destas células, permitindo desenhar estratégias preventivas mais eficazes.
Uma perspetiva institucional de futuro e bem-estar
Segundo Samuel Ribeiro, diretor clínico do IVI Lisboa e especialista em medicina da reprodução, estes trabalhos refletem uma mudança de paradigma essencial: o foco atual da medicina reprodutiva reside na preservação e na recuperação da qualidade biológica das células. Embora estas técnicas se encontrem em fase experimental, os avanços apresentados oferecem uma perspetiva sólida e encorajadora para o reforço dos serviços de saúde reprodutiva e para a melhoria da qualidade de vida das famílias.







