Estudo europeu revela que secura vaginal, falta de desejo, dificuldades em atingir o orgasmo e dor nas relações continuam a ser temas pouco discutidos nas consultas
Mais de seis em cada dez mulheres portuguesas experienciam problemas relacionados com a sua vida sexual, mas a maioria nunca procurou um médico para falar sobre essas dificuldades. A conclusão é do Estudo Taboo, um inquérito europeu que envolveu 12 mil mulheres entre os 18 e os 59 anos, incluindo 2.000 participantes em Portugal.
Os resultados mostram que temas como a sexualidade, a menopausa, a contraceção e a fertilidade continuam a ser marcados pelo silêncio e pelo estigma, apesar do impacto que podem ter na qualidade de vida das mulheres.
Entre os problemas sexuais mais frequentes encontram-se a secura vaginal, a redução ou ausência de libido, a dificuldade ou ausência de orgasmo e a dor durante as relações sexuais. No conjunto dos países analisados, estes problemas afetam 65% das mulheres.
Em Portugal, apesar da frequência destas situações, muitas mulheres não recorrem a profissionais de saúde. Os problemas relacionados com o desejo sexual e o orgasmo estão entre aqueles que menos chegam ao consultório.
“Não devem ser encarados como normais”
Carla Rodrigues, coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, alerta que sintomas como a secura vaginal, a dor durante as relações, a diminuição do desejo sexual ou a dificuldade em atingir o orgasmo não devem ser considerados normais ou inevitáveis.
Segundo a especialista, existem atualmente diferentes opções de tratamento, que podem incluir educação e aconselhamento sexual, lubrificantes e hidratantes vaginais, tratamentos hormonais ou não hormonais, fisioterapia do pavimento pélvico e terapia sexual, dependendo das necessidades de cada mulher.
Pressão para ser mãe afeta quase metade das mulheres
A maternidade é outro dos temas onde o estudo identifica uma forte pressão social. 47% das mulheres portuguesas dizem sentir pressão da família ou dos amigos para terem filhos.
Essa pressão é ainda mais evidente entre as mulheres que não desejam ser mães, mas também é significativa entre aquelas que estão a planear uma gravidez ou que tentam engravidar há mais tempo sem sucesso.
Luís Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, considera que esta pressão pode levar muitos casais a isolarem-se socialmente, sobretudo durante tratamentos de fertilidade ou perante dificuldades em conseguir uma gravidez.
O estudo mostra ainda que stress e ansiedade podem agravar o impacto psicológico associado a estas situações.
Falta de informação condiciona decisões
A literacia em saúde sexual e reprodutiva surge igualmente como uma das principais preocupações identificadas pelo inquérito.
Um dos exemplos é a contraceção de emergência: 43% das mulheres portuguesas dizem não utilizar a chamada “pílula do dia seguinte”, sobretudo devido ao receio de efeitos indesejáveis, mas também por preferirem aguardar pela confirmação de uma eventual gravidez ou por considerarem, erradamente, que se trata de um método abortivo.
Amália Pacheco, presidente da Sociedade Portuguesa de Contraceção, defende que a contraceção de emergência deve ser abordada nas consultas de forma clara, permitindo que cada mulher conheça as diferentes opções disponíveis e tome decisões informadas.
O estudo revela ainda que 31% das mulheres não utilizaram qualquer método contracetivo no mês anterior. Embora a maioria considere a contraceção uma responsabilidade partilhada com o parceiro, apenas 39% afirma dividir os custos financeiros.
Menopausa continua a ser vivida com falta de informação
A menopausa é outro dos períodos da vida feminina onde o silêncio e a falta de informação permanecem evidentes.
De acordo com o estudo, 35% das mulheres portuguesas dizem sentir-se sozinhas durante esta fase. Em média, as mulheres enfrentam quase seis sintomas diferentes, sendo os afrontamentos e a fadiga apontados entre os que mais interferem no quotidiano.
Apesar disso, 36% não procura acompanhamento médico para lidar com os sintomas da menopausa.
Dois terços das mulheres apresentam conhecimentos reduzidos ou apenas básicos sobre esta fase, sobretudo entre aquelas que não têm contacto regular com um ginecologista.
Ana Fatela, da Direção da Secção de Menopausa da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, salienta que a terapêutica hormonal pode ser, quando devidamente indicada e após avaliação individual dos riscos e benefícios, o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores. A decisão, sublinha, deve ser tomada em conjunto com o médico e com base na evidência científica.
Fátima Faustino, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, defende, por sua vez, um acompanhamento médico ao longo das diferentes fases da vida da mulher e uma maior aproximação das gerações mais jovens aos cuidados ginecológicos.
Saúde feminina continua marcada por tabus
O estudo conclui que os problemas que maior impacto têm na sexualidade são também alguns dos que mais embaraço provocam nas mulheres, nomeadamente as queixas vaginais e a incontinência urinária.
Outro dado relevante está relacionado com a idade da maternidade: para cerca de um quinto das mulheres, o momento ideal, do ponto de vista financeiro, para ter filhos surge depois dos 36 anos, uma idade que pode coincidir com o início da redução da fertilidade feminina.
Realizado através de questionário online, o Estudo Taboo ouviu 12.000 mulheres entre os 18 e os 59 anos na Hungria, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Em Portugal, foram inquiridas 2.000 mulheres, numa amostra representativa a nível nacional, com quotas baseadas na idade e região.
A iniciativa contou com o apoio da Gedeon Richter, no âmbito do seu compromisso com a promoção da saúde da mulher.







