O concelho de Cascais presta uma homenagem a Carlos Avilez, uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa contemporânea. No dia 13 de abril, será inaugurado o Largo Carlos Avilez, até agora conhecido como Largo do Cruzeiro, num gesto simbólico que eterniza o contributo do encenador para o desenvolvimento artístico e cultural.
Figura incontornável do teatro em Portugal, Carlos Avilez dedicou grande parte da sua vida à criação, formação e dinamização cultural, deixando uma marca profunda em várias gerações de artistas e no panorama teatral nacional.
A sua ligação a Cascais, onde desenvolveu grande parte do seu trabalho, torna esta homenagem particularmente significativa para a comunidade local, celebrando o legado de um homem que fez do teatro uma missão e um instrumento de transformação.
Para assinalar esta data, apresentamos um texto do Professor José d’Encarnação, que partilha uma reflexão sobre o percurso e o legado de Carlos Avilez.
Sonho, loucura e gratidão
Acreditavam os Romanos que cada homem era dotado de um génio, sua divindade protetora e perene fonte de inspiração. Caberia, portanto, a cada um ter a sensibilidade bastante e atenção bem desperta para suas sugestões escutar. Carlos Avilez jamais descurou o seu e, por isso, a sua obra foi gigante.
Sempre vi no seu fundo e sereno olhar uma sonhadora loucura, o querer ir mais além, em permanente superação de barreiras.
Abraçou com entusiasmo os sonhos dos outros, os autores; e passou-os do papel escrito para as três dimensões, faladas e movimentadas, de um palco – para que a mensagem ecoasse, intensa e viva.
Hão-de estudar-se os escritos que nos legou nos “textos de apoio” de cada produção do Teatro Experimental de Cascais. Colha-se um. Por exemplo, o incluído na pasta do Eu Sou a Minha Própria Mulher, a peça levada à cena em Fevereiro/Março de 2022, protagonizada por Marco d’Almeida:
«Não posso deixar de recordar o jovenzinho que apareceu na escola com aqueles olhos brilhantes e uma noção do que queria, isto é, do seu amor pelo teatro» – escreveu Carlos Avilez.
E esta singular evocação constituiu prelúdio para manifestar a grande alegria com que assistia «à emergência de novas companhias com a mesma crença e paixão que eu e os meus colegas tivemos ao criar o Teatro Experimental de Cascais, em 1965. Cabe a cada nova geração manter viva a chama sagrada que transporte o Teatro para além das portas do teatro». Palavras de ânimo, na sequência de um dos maiores encómios que, alguma vez, fez, aí também, ao valor do Teatro no mundo: teatro-religião, teatro-didáctica, teatro-paixão, teatro-revolução:
«O Teatro é revolucionário, grita contra a opressão e resiste sempre. O seu espírito a tudo sobrevive: às guerras e conflitos, à repressão e à censura. Consegue sempre renascer, mesmo nas circunstâncias mais adversas»:
A paixão que inoculou nos seus estudantes; a paixão com que, contra tudo e contra todos, deu vida à Escola Profissional de Teatro, forte pilar que a sua memória a todos nos obriga a manter sempre erguida, em honra dos muitos actores que já formou e queremos que continue a formar.
Finalmente, a gratidão. Própria de um grande espírito. Por todos e cada um que, em todas as circunstâncias, com ele quiseram colaborar. A todos fez sempre questão de agradecer. – José d’Encarnação










