Projeto integrado no programa Pró-Infância da Fundação “la Caixa” utiliza o surf como ferramenta de desenvolvimento pessoal, autonomia e inclusão social para crianças e jovens provenientes de contextos socioeconómicos mais vulneráveis.

A Praia de Carcavelos recebeu uma sessão de surf terapia do projeto Surf.Art – Atreve-te, Realiza-te, Transforma-te, uma iniciativa integrada no programa Pró-Infância da Fundação “la Caixa” que procura promover o bem-estar emocional e o desenvolvimento pessoal de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social.

A atividade reuniu cerca de 12 participantes, com idades entre os 11 e os 15 anos, que tiveram contacto com o surf e com o mar num contexto terapêutico e educativo. O objetivo passa por reforçar competências como a autoestima, a resiliência, a autonomia e a confiança em si próprios.
Segundo Mafalda Rebelo, técnica responsável pelo projeto, o programa Pró-Infância está presente na associação Raízes desde 2021 e tem uma intervenção mais ampla do que a simples dinamização de atividades lúdicas. “Este programa tem como objetivo dar ferramentas às nossas crianças e jovens nas áreas do sucesso escolar, do desenvolvimento pessoal, da autonomia e também da integração na comunidade”, explicou.
A responsável adiantou que a associação acompanha mais de 80 famílias, prestando apoio em áreas essenciais e acompanhando todo o percurso escolar das crianças, “ajudamos também as famílias na parte do material escolar. Eles recebem um cartão com um valor já estipulado, que pode ser utilizado durante o ano letivo para material escolar e para óculos de quem precisar. É um apoio extra que o programa Pró-Infância dá”, afirmou.

Além do apoio educativo e social, o programa aposta fortemente em atividades que combinem aprendizagem e desenvolvimento emocional. É nesse contexto que surge o Surf.Art, “temos aqui a vertente ludopedagógica, portanto eles acabam por estar a brincar e a aprender ao mesmo tempo. Estamos a dar oportunidades a estes jovens que, se não fosse o programa Pró-Infância, provavelmente não conseguiriam ter acesso a esta atividade. O Surf.Art é uma delas”, sublinhou Mafalda Rebelo.
Os jovens participantes são maioritariamente referenciados nas escolas, na Santa Casa da Misericórdia ou na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), embora exista também a possibilidade de inscrição através das próprias famílias. De acordo com a técnica, o projeto trabalha sobretudo com famílias social e economicamente vulneráveis, provenientes de bairros sociais da zona norte de Lisboa, “os nossos jovens vêm muito da Ameixoeira e da Charneca. Neste momento temos dois espaços, um situado na Ameixoeira e outro na Alta de Lisboa, na Charneca”, explicou.

Terapia e Autorregulação
Para além da componente social, educativa e de apoio às famílias, o Surf.Art integra um trabalho contínuo de educação emocional e desenvolvimento de competências socioafetivas, realizado antes, durante e após as atividades no mar. É nesta vertente que intervém Margarida Barbeito, técnica que acompanha os jovens ao longo das sessões e que explica que o surf funciona como ponto de partida para trabalhar emoções, relações interpessoais e estratégias de autorregulação, “este Surf.Art, em especial, tem também uma componente terapêutica”, afirmou.
Antes de entrarem na água, os participantes realizam uma sessão de preparação emocional, centrada em valores como a empatia, o respeito pelo outro e a confiança no grupo, “o nosso pedido para a sessão de hoje foi que se falasse sobre a empatia, o respeito pelo outro e a confiança no outro. Depois fazem uma roda em que partilham algo que o grupo ainda não conhece sobre eles, e essa partilha é trabalhada ao longo de toda a sessão”, explicou.

A técnica descreveu ainda a estrutura da atividade, que inclui momentos de reflexão, exercícios de trabalho em equipa na areia e dinâmicas dentro de água adaptadas às condições do mar, “temos uma parte de areia com jogos de cooperação, passamos depois para a água, onde aprendem a colocar-se em cima da prancha, e terminamos com uma roda de reflexão para voltar ao tema inicial: o que aprenderam, que emoções sentiram e como lidaram com essas emoções”, referiu.
Segundo Margarida Barbeito, os dias em que o mar apresenta maior agitação tornam-se particularmente importantes para trabalhar a gestão da frustração, do medo e da ansiedade, “quando o mar está mais forte, acaba sempre por surgir esta vertente de lidar com a frustração, com os medos e com tudo o que essas emoções despertam”, disse.
O acompanhamento dos jovens continua para além das sessões de surf, integrado no programa Pró-Infância, permitindo trabalhar de forma continuada a identificação e expressão das emoções, “só o facto de já saberem dizer que estão tristes e não apenas chateados, ou que estão frustrados e não simplesmente com raiva, já é uma grande diferença para nós”, salientou.
Margarida Barbeito afirma que o acompanhamento contínuo dos jovens tem produzido mudanças visíveis na forma como identificam e expressam as emoções, bem como nos comportamentos em grupo. Segundo a técnica, essas competências acabam por refletir-se também na família, entre os amigos e sobretudo na escola, onde as diferenças são mais evidentes em contexto de aula e nos recreios.

Os intervenientes
Entre fatos de neoprene ainda por fechar e pranchas alinhadas na areia, o entusiasmo era evidente entre os jovens que participaram na sessão do Surf.Art antes da entrada na água. Para muitos, tratava-se da primeira experiência de surf. Enzo, de 13 anos, um dos participantes, contou que teve conhecimento da atividade através do programa ligado à associação da Ameixoeira. Apesar de nunca ter praticado surf, Enzo mostrava-se visivelmente entusiasmado com o desafio, “é a primeira vez, estou muito entusiasmado”, afirmou.

Quando questionado sobre o que esperava da atividade, respondeu com espontaneidade, “estava à espera de muitas ondas, só que parece que hoje o mar está mais calmo.”
O contacto com a água não era uma novidade para o Enzo, que garantiu gostar muito do mar e saber nadar, mostrando-se preparado para enfrentar a experiência, “gosto muito da água e sei nadar”, disse, sorridente.
Mais do que a curiosidade pelo surf, o jovem destacou a vontade de poder partilhar a experiência com a irmã mais nova, “eu queria muito fazer isto com a minha irmã mais nova, porque ela gosta muito destas coisas. Gostava que ela pudesse vir também.”
Sobre a possibilidade de continuar a praticar surf no futuro, deixou a porta em aberto, “não sei… depende, mas gostava muito”.
A importância deste trabalho emocional é sentida também pelos próprios participantes. Antes de entrarem na água, o ambiente era de expectativa e entusiasmo, sobretudo entre aqueles que nunca tinham experimentado surf.

Também Ariela, de 12 anos, participou pela primeira vez nesta atividade. A jovem explicou que entrou no projeto através da associação Raízes, onde costuma participar noutras iniciativas de tempos livres, “é divertido, nós fazemos atividades, é bom”, contou.
Segundo Ariela, foi a mãe quem a inscreveu no programa, com o objetivo de a manter ocupada e proporcionar novas experiências, “a minha mãe inscreveu-me para eu não ficar em casa e para eu ter uma ajuda”, explicou.
Ao longo do ano, Ariela já participou em várias atividades organizadas pela associação, como idas à praia, piqueniques e sessões na piscina, “vamos para a praia, fazer piqueniques, já fomos várias vezes à piscina. É bom divertirmo-nos com as Raízes”, afirmou.
Apesar de nunca ter praticado surf, Ariela mostrou-se curiosa e motivada para aprender os primeiros movimentos na prancha, “é a primeira vez. Nunca fiz surf, mas agora vou aprender os primeiros passos”, disse, antes de entrar na água.
Mesmo admitindo que ainda não se sente totalmente confiante a nadar, a jovem garantiu estar entusiasmada com a experiência e preparada para enfrentar o desafio das primeiras ondas em Carcavelos.

Mais do que uma manhã passada na Praia de Carcavelos, a sessão do Surf.Art procurou mostrar como o contacto com o mar pode tornar-se uma ferramenta de crescimento pessoal e inclusão social. Entre exercícios de cooperação, momentos de reflexão e as primeiras tentativas de equilíbrio na prancha, os jovens participantes levaram consigo não apenas uma nova experiência, mas também competências emocionais e sociais que o projeto pretende continuar a desenvolver. Sob o lema estampado nas t-shirts do grupo “No mar somos todos iguais”, a iniciativa reforçou a ideia de que o surf pode ser um espaço de confiança, superação e igualdade de oportunidades para crianças e jovens em situação de maior vulnerabilidade.
Bruno Taveira







