Sábado, Março 7, 2026
Início PATRIMÓNIO Hotel Palácio Estoril: palco de intrigas internacionais

Hotel Palácio Estoril: palco de intrigas internacionais

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Inaugurado a 30 de agosto de 1930, o Hotel Palácio Estoril afirmou-se desde cedo como um dos principais centros da vida social portuguesa. A cerimónia de abertura contou com a presença do Presidente da República, Óscar Carmona, e incluiu um banquete de gala, baile, fogo de artifício e a estreia de um filme protagonizado por Rudolph Valentino, símbolo do glamour da época.
O hotel foi idealizado por Fausto de Figueiredo, empresário que ambicionava criar no Estoril uma “Riviera portuguesa”, inspirada em Biarritz. O edifício, projetado pelo arquiteto francês Henri Martinet, introduziu um nível de sofisticação até então pouco comum em Portugal. Paralelamente, Figueiredo promoveu a eletrificação da Linha de Cascais, obteve do governo a concessão do jogo e impulsionou infraestruturas de lazer que estiveram na base do Estoril moderno, pensado para atrair a elite europeia através da ligação ferroviária do Sud Express, a partir de Paris.
Durante a II Guerra Mundial, após a declaração de neutralidade de Portugal, Lisboa tornou-se um dos últimos pontos de entrada e saída do continente, e o Hotel Palácio um ponto de encontro de refugiados, aristocratas exilados, aventureiros, diplomatas e agentes secretos. No bar do hotel ecoava uma cacofonia de línguas estrangeiras, num ambiente onde a informação era o bem mais valioso. Todas as fascinantes figuras que por ali passaram permanecem imortalizadas em numa galeria de fotografias.
Entre os hóspedes ilustres destacou-se Ian Fleming, então oficial da Inteligência Naval britânica.No bar do hotel e no Casino Estoril observou jogos de cartas entre agentes inimigos, inspiração direta para o livro Casino Royale e para a criação do personagem James Bond. Outro hóspede lendário foi o espião duplo sérvio DuskoPopov, apontado como modelo do agente secreto 007. A carta do denominadoBar dos Espiões inclui ainda hoje o “007 Dry Martini”, criação exclusiva em sua honra.
O Hotel Palácio acolheu ainda figuras como Antoine de Saint-Exupéry, que ali terá iniciado a escrita de O Principezinho, e Maria Callas, hospedada no hotel aquando da sua atuação no Teatro Nacional de São Carlos, em 1958.
Em 1968, o edifício foi utilizado como cenário do filme 007 – Ao Serviço de Sua Majestade. A fachada, o lobby e a piscina mantêm-se praticamente inalterados, preservando a ligação do hotel à história do cinema e à memória política e cultural do século XX.

• Vera Nobre
Historiadora / Universidade Nova de Lisboa