Entre pinhais e pequenas hortas, conserva-se a traça do antigo casario saloio: casas caiadas com telhados de duas águas e muros de alvenaria de pedra, típicos do habitante rural do século XIX. Mais do que um simples conjunto habitacional, este bairro representa uma verdadeira memória viva da identidade saloia que, durante séculos, marcou a paisagem e a cultura da região de Cascais.
Um bairro nascido da ruralidade As Fontainhas cresceram num período em que a vida no concelho estava profundamente ligada à agricultura e ao trabalho da terra. A paisagem era composta por pequenas propriedades agrícolas e pomares cultivados por famílias que viviam do esforço diário no campo. As habitações refletem essa origem: paredes brancas, telhas tradicionais e muros de pedra que delimitavam quintais e pátios. Estas construções não eram apenas residências, mas espaços de trabalho onde a vida doméstica e agrícola se fundiam.
Segundo estudos sobre a arquitetura tradicional, as “casas saloias” eram edificações robustas, pensadas para responder às necessidades do mundo rural. Construídas com materiais locais e técnicas simples, garantiam frescura no verão e proteção no inverno. Hoje, apesar das transformações urbanísticas das últimas décadas, as Fontainhas preservam muitos destes elementos, funcionando como um raro testemunho da antiga paisagem agrícola do concelho.
As corridas históricas dos bombeiros O bairro não foi apenas cenário de vida rural; ao longo do século XX, acolheu acontecimentos que marcaram a vida social e desportiva da comunidade. Entre os episódios mais curiosos estão as corridas de atletismo organizadas pelos Bombeiros Voluntários de Cascais. Fotografias do Arquivo Histórico Municipal mostram, por exemplo, a equipa de atletismo em 1954 a disputar uma prova no circuito das Fontainhas, rodeada por habitantes entusiastas.
Décadas depois, em 1978, novos registos mostram atletas em competição no Outeiro da Vela, área associada ao bairro. Estas imagens revelam o forte espírito comunitário, com moradores reunidos ao longo das ruas para assistir à passagem dos corredores, transformando o evento numa verdadeira festa popular. Estes documentos comprovam o papel relevante do bairro como palco de atividades desportivas locais.
Um património arquitetónico singular A preservação da arquitetura tradicional é um dos aspetos mais marcantes. As ruas estreitas e sinuosas foram desenhadas muito antes da lógica urbanística moderna, acompanhando o relevo natural do terreno e os caminhos que outrora ligavam as propriedades. Graças a esta morfologia praticamente intacta, o bairro representa um fragmento importante da história urbana e rural de Cascais, onde ainda é possível imaginar a vida antes da urbanização acelerada.
Para muitos moradores antigos, o verdadeiro património está nas memórias partilhadas. Relatos recordam um ambiente de vizinhança próximo, onde as festas populares eram momentos aguardados, as crianças brincavam ao ar livre e os adultos se ajudavam mutuamente. Mesmo com as mudanças sociais, muitos habitantes consideram que esta identidade solidária continua a ser a marca mais forte das Fontainhas.








