Apenas 40,9% das políticas públicas de prevenção avaliadas apresentam níveis elevados de implementação. Portugal ocupa a 7.ª posição entre 11 países europeus analisados.
Portugal está entre os países mais envelhecidos da União Europeia, mas continua a dedicar uma parcela reduzida da despesa em saúde à prevenção. Em 2023, os cuidados preventivos representavam apenas 2,3% da despesa corrente em saúde, abaixo da média europeia de 3,7%, segundo dados do Eurostat analisados no âmbito do projeto +Prevenção.
O estudo, coordenado pelo NOVA Center for Global Health (NCGH), da NOVA IMS, e pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), avaliou a implementação de 22 políticas de prevenção em 11 países europeus.
Portugal obteve 55,3 pontos em 100, ficando na 7.ª posição do índice, muito próximo da média dos países analisados, que se fixou nos 55,6 pontos. Contudo, apenas 40,9% das políticas de prevenção avaliadas no país apresentam níveis elevados de implementação.
Vacinação e rastreios entre os pontos fortes
A imunização e os rastreios são apontados como as áreas onde Portugal apresenta melhores resultados. Ainda assim, os investigadores identificam margem para reforçar a vacinação ao longo do ciclo de vida, nomeadamente através de uma estratégia nacional de vacinação de adultos.
O estudo aponta também para a necessidade de aumentar a participação nos programas de rastreio e reduzir as desigualdades no acesso às medidas de prevenção.
Em sentido contrário, a Educação para a Saúde e Literacia em Saúde, bem como a utilização de Dados e Inteligência Artificial, surgem entre as áreas com maior margem de melhoria.
Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE
Os dados analisados mostram que 24,3% da população portuguesa tem 65 ou mais anos, colocando Portugal como o segundo país mais envelhecido da União Europeia.
Apesar do aumento da esperança de vida, as doenças cardiovasculares e o cancro continuam a representar quase metade das mortes no país. Os investigadores sublinham ainda que uma parte significativa da carga da doença está relacionada com fatores de risco que podem ser prevenidos ou modificados.
Para Ricardo Baptista Leite, Chairman do NOVA Center for Global Health, o principal desafio passa por transformar a prevenção numa prioridade estrutural das políticas públicas.
“Numa sociedade cada vez mais envelhecida, investir em prevenção não é um custo: é uma condição para garantir a sustentabilidade futura do sistema de saúde e a qualidade de vida das pessoas”, afirma.
Investimento em prevenção pode estar subestimado
Uma das conclusões do estudo prende-se com a dificuldade em medir o verdadeiro investimento português em prevenção.
88,2% dos especialistas consultados consideram que esse investimento poderá estar subestimado, devido às limitações dos sistemas atuais de reporte e monitorização.
Parte das ações preventivas é realizada no âmbito dos cuidados de saúde primários e do acompanhamento de doenças crónicas, sem ser contabilizada autonomamente como prevenção. O mesmo acontece com medidas desenvolvidas fora do setor da saúde, nomeadamente nas áreas da educação, ambiente, habitação, emprego, proteção social e intervenção municipal.
Os investigadores defendem, por isso, uma mudança de uma lógica centrada na despesa para uma abordagem que permita medir o investimento em prevenção, relacionando os recursos aplicados com indicadores de cobertura, acesso, equidade e resultados em saúde.
Literacia e tecnologia entre as prioridades
O estudo defende o reforço da literacia em saúde ao longo da vida, permitindo que a população tome decisões mais informadas sobre a sua saúde.
A utilização responsável de dados e inteligência artificial é igualmente apontada como uma oportunidade para melhorar a prevenção, através de respostas mais personalizadas e eficazes.
Sónia Dias, Diretora da Escola Nacional de Saúde Pública, sublinha que a prevenção deve ultrapassar o espaço dos serviços de saúde.
“A prevenção não acontece apenas nos hospitais ou centros de saúde. Acontece nas escolas, nos locais de trabalho, nas comunidades e nas decisões do dia a dia”, afirma.
O projeto +Prevenção aponta, assim, três prioridades para Portugal: reforçar a implementação das políticas preventivas ao longo do ciclo de vida, melhorar a monitorização e governação da prevenção e avaliar de forma sistemática o retorno dos investimentos realizados.







