Quinta-feira, Novembro 5, 2026
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Cancro do Pâncreas: de ameaça crescente a prioridade urgente – Artigo de Opinião

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Artigo escrito por Alexandra Fernandes, gastrenterologista na ULS da Região de Leiria, presidente do Clube Português do Pâncreas (CPP) da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)

 

No próximo dia 19 de novembro, assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pâncreas. Esta data é um alerta urgente para uma doença com incidência crescente, que constitui um grave problema de saúde pública em todo o mundo. Atualmente, o cancro do pâncreas é já a 4ª causa de morte por cancro na Europa, prevendo-se que ocupe o 2º lugar já em 2035, afirmando-se como um dos tumores mais letais.

Os sintomas são frequentemente inespecíficos nas fases iniciais, condicionando um diagnóstico tardio na maioria dos casos, o que está associado a um prognóstico muito desfavorável. Falamos de sintomas como dor abdominal ou nas costas, perda de peso inexplicável, falta de apetite, diarreia, náuseas, icterícia (pele e olhos amarelados) ou o aparecimento súbito de diabetes.

Deste modo, torna-se imperativo que a população conheça esta sintomatologia e, perante a sua persistência, procure ajuda médica. Nestes casos, a realização de um exame de imagem adequado, como a Tomografia Computadorizada, pode estabelecer o diagnóstico. Face à enorme dificuldade de um diagnóstico atempado, o nosso foco principal deve centrar-se na prevenção.

Sabemos que existem fatores de risco que não são modificáveis, como a idade avançada e a predisposição genética. Contudo, a grande maioria dos fatores de risco são modificáveis e dependem diretamente do estilo de vida: o consumo de tabaco e álcool, a obesidade, a diabetes e uma dieta desequilibrada estão associados a um maior risco de desenvolver a doença.

A aposta na prevenção torna-se ainda mais imperativa quando sabemos que, uma vez instalada, a doença progride de forma silenciosa, tornando-se dificilmente curável aquando do diagnóstico. A cirurgia é atualmente a única opção potencialmente curativa, mas apenas uma pequena minoria de doentes (cerca de 15%) são candidatos a tratamento cirúrgico no momento do diagnóstico.

Apesar do cenário historicamente sombrio, há hoje vários sinais encorajadores. O contínuo desenvolvimento de novos esquemas de quimioterapia, progressivamente mais dirigidos e personalizados às características biológicas de cada tumor, torna os tratamentos mais eficazes e tem condicionado uma maior sobrevivência a longo prazo. Paralelamente, a melhoria da precisão e segurança da cirurgia pancreática tem permitido aumentar o número de candidatos cirúrgicos.

No entanto, para consolidar esta esperança, não podemos baixar os braços. É inaceitável que a investigação científica na área do cancro do pâncreas receba menos de 2% de todo o financiamento oncológico europeu. São exigidos mais esforços e mais fundos dirigidos à investigação nesta doença, nomeadamente no desenvolvimento de novos métodos para diagnóstico precoce e na descoberta de terapêuticas cada vez mais eficazes e personalizadas.

Adicionalmente, é imperativo apostar em fortes campanhas de sensibilização para alertar a população relativamente aos fatores de risco que podem e devem ser evitados. Só com prevenção, educação e aposta contínua na ciência conseguiremos mudar o paradigma do cancro do pâncreas.