Quarta-feira, Outubro 28, 2026
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O AVC acontece no cérebro. A causa pode estar no coração – Artigo de Opinião

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Artigo escrito por Dr. Francisco Morgado – Coordenador do Departamento de Arritmologia do Hospital de Santa Cruz

 

Uma alteração silenciosa do ritmo cardíaco pode estar por detrás de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Em Portugal, cerca de três pessoas sofrem um AVC por hora e uma não sobrevive, segundo estimativas divulgadas pela Sociedade Portuguesa do AVC, que identifica esta doença como a primeira causa de morte e incapacidade no país.

Neste Dia Mundial do AVC, a 29 de outubro, importa dar a conhecer uma ligação que pode passar despercebida: o AVC afeta o cérebro (resultante de uma súbita falta de irrigação deste órgão), mas a sua origem pode estar no coração. Quando, após um AVC, a causa continua por esclarecer, a investigação poderá ter de prosseguir depois da alta, para orientar a prevenção de um novo evento.

A fibrilhação auricular é uma alteração do ritmo cardíaco que faz o coração bater de forma irregular e pode favorecer a formação de coágulos. Se chegarem ao cérebro e bloquearem a circulação, podem provocar um AVC. Esta arritmia pode aumentar até cinco vezes o risco de AVC e surgir de forma intermitente, sem causar palpitações ou mal-estar. Por isso, um exame de curta duração pode não ser suficiente para a detetar.

É por isso que acompanhar o ritmo do coração durante mais tempo pode fazer a diferença. Em doentes selecionados após um AVC de causa desconhecida, a equipa médica poderá recomendar um pequeno monitor cardíaco implantável, colocado sob a pele. Este dispositivo permite acompanhar o ritmo durante mais de 4 anos e detetar alterações que poderiam passar despercebidas num exame breve, mesmo sem sintomas.

Encontrar esta alteração pode mudar o tratamento. Quando se confirma fibrilhação auricular, a equipa médica pode avaliar a indicação para medicamentos anticoagulantes, que reduzem a formação de coágulos e previnem o AVC.

Dispomos ainda de formas de tratamento da fibrilhação auricular, que evoluíram nos últimos anos, que podem permitir a erradicação da doença, e anular o risco de AVC associado à arritmia.

Para além do controle da pressão arterial, está recomendado fazer um controle paralelo da frequência cardíaca (“pulsações”). Um súbito aumento das pulsações em repouso, relativamente ao que é o normal ou basal para essa pessoa, é uma indicação para procurar rapidamente um médico.

Reconhecer os sinais e agir rapidamente pode salvar vidas e reduzir as sequelas. Desvio dos lábios (“boca ao lado”), com dificuldade em falar ou articular palavras, são sinais de alerta: basta um deles para ligar imediatamente 112.

Perante um AVC, cada minuto conta para proteger o cérebro. Mas a prevenção de um novo episódio começa por compreender o que o causou. Por isso, olhar para o coração pode ser essencial para proteger o futuro.